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Ricardo Nêggo Tom

Músico, graduando em jornalismo, locutor, roteirista, produtor e apresentador dos programas "Um Tom de resistência", "30 Minutos" e "22 Horas", na TV 247, e colunista do Brasil 247

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O menino "nazista" de Mossoró

Tudo normal num país onde mais de 57 milhões de pessoas fizeram apologia ao nazismo elegendo Jair Bolsonaro como presidente, escreve Ricardo Nêggo Tom

Adolescente com traje nazista e uma formatura no Rio Grande do Norte (Foto: Reprodução (Redes Sociais))

Para aqueles que estão assustados com a fantasia que remete ao exército nazista alemão, usada por um adolescente durante a formatura de uma turma de medicina em Mossoró, Rio Grande do Norte, devo lembrá-los que o Brasil teve a maior seção do Partido Nazista fora da Alemanha, antes mesmo de Adolph Hitler chegar ao poder. Com quase 3.000 membros distribuídos em 17 estados, o Partido Nazista Brasileiro foi fundado em 1928, na cidade de Timbó, em Santa Catarina, e só veio a ser considerado ilegal 10 anos depois, no governo de Getúlio Vargas. Isto prova que nosso país sempre flertou com ideologias políticas criminosas e desumanas, o que justifica a eleição de Jair Bolsonaro e a morte de mais de 700 mil pessoas durante a pandemia, graças à negligência do seu governo e à sua política de extermínio de minorias.

Não seria exagero se disséssemos que o bolsonarismo e o neonazismo crescente no país convergem em ideologia política, social e cultural, tendo na igreja evangélica um vigoroso pilar de sustentação. Assim como a maioria dos adeptos ao protestantismo de Martinho Lutero, constituiu uma importante base de apoio para os ideais nazistas de Adolf Hitler. Aliás, o antissemitismo de Lutero serviu de inspiração para o Hitler, que construiu a base ideológica da propaganda do regime nazista sob os escritos odiosos e virulentos de Lutero sobre os judeus. O “ungido” alemão, conhecido como o reformador da igreja, escreveu um livro (tratado) chamado “Sobre os judeus e suas mentiras”, no qual defendia medidas como: incendiar sinagogas e escolas judaicas, destruir seus livros de oração e forçar os judeus a realizarem trabalhos manuais ou serem expulsos. A última medida deve ter inspirado a criação dos campos de concentração nazista.

No Brasil, apesar da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 (Lei do Crime Racial), que criminaliza a fabricação, comercialização, distribuição ou veiculação de símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada para fins de divulgação do nazismo, um adolescente conseguiu comprar um uniforme do exército nazista para usá-lo como fantasia na formatura de futuros médicos brasileiros. Peço perdão pela ignorância em não saber que convidados poderiam ir fantasiados a festas de formaturas de colação de grau, e pensar que tudo havia sido planejado exatamente para chamar a atenção e provocar mais uma polêmica sobre liberdade de expressão no país. Ainda mais suspeitando da inocência de um adolescente cujo perfil na rede social trazia escrito no bio: "Ein Volk, ein Reich, ein Führer", o slogan central da propaganda nazista. Senhor Hitler, perdoai-me! Eu não sei o que falo. Ou sei?

Enquanto o menino nazista de Mossoró vem sendo atacado nas redes sociais, seus pais, e suas irmãs celebradas como novas médicas na festa onde ele foi fantasiado de nazista, ainda não deram o ar da graça e não se manifestaram sobre o episódio. Para piorar, fizeram o adolescente gravar um vídeo de desculpas, dizendo que ele é um “menino bom” que sempre gostou de se fantasiar de super-heróis, como o Capitão América. Para piorar só mais um pouquinho, o vídeo foi todo trabalhado na estética racista arrependido, com o adolescente vestindo uma camisa branca visivelmente amarrotada, tendo ao fundo um quadro de Jesus e seus apóstolos, e pedindo perdão “a quem se sentiu ofendido”. Aparentemente sob orientação jurídica, a família do menino se exime da responsabilidade de ter fomentado no filho um sentimento heróico e lúdico com relação ao nazismo, e o submete a mais uma cena de constrangimento público.

Outro fato curioso é que olhando os depoimentos dos presentes na festa, incluindo professores da turma de medicina e organizadores do evento, ninguém percebeu que havia um mini craque do 3º Reich entre os convidados. Seria o menino um agente secreto do Partido Nazista de Mossoró? Merece um Globo de Ouro por ter conseguido passar batido diante dos olhos de tanta gente que agora está vindo a público repudiar o ocorrido. Gente que não viu ele e seus familiares posando para fotografias e fazendo a saudação nazista com um sorriso de quem acabara de asfixiar um judeu numa câmara de gás. Se todos esses futuros médicos tiverem essa dificuldade de enxergar o que está diante dos seus olhos no exercício de sua função clínica, seus pacientes correrão o risco de serem operados por uma suástica, ao invés de um bisturi. Mas ok! Pode ser que ninguém tenha percebido mesmo, até porque, segundo informações, o menino teria chegado com outra roupa e vestiu a fantasia no local do evento. Tão insignificante assim para não ser notado, ele pode interpretar a versão mossoroense de “Esqueceram de mim”. Ariano igual ao Macaulay Culkin ele já pensa que é.

Tudo normal num país onde mais de 57 milhões de pessoas fizeram apologia ao nazismo elegendo Jair Bolsonaro como presidente. Segue o jogo. A Faculdade de Enfermagem Nova Esperança, já emitiu nota de repúdio dizendo que o corrido “afronta os valores democráticos, a dignidade humana e a memória das vítimas do nazismo, sendo totalmente incompatível com os princípios éticos, humanísticos e acadêmicos que orientam a instituição” A empresa organizadora do evento disse que “repudia de forma veemente qualquer ato, símbolo ou manifestação relacionada ao nazismo ou a ideologias de ódio” Resta saber com quantas notas de repúdio se faz mais um nazista. O Ministério Público e a Polícia Civil do Estado estão investigando o caso, e não devem concluir absolutamente nada sobre o fato. Na verdade, eu acho que cabe a sociedade, sobretudo, aos pais e responsáveis, não alimentar certas fantasias em crianças e adolescentes. Principalmente, quando a imaginação pode dar asas a uma realidade criminosa e desumana.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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